Murakami: Talento, concentração e persistência

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha

Eu, que não sou dado a corridas, muito menos de fundo, li com prazer esta espécie de confissão de atleta/romancista. Como sempre, com a sua linguagem despojada, cheia de lugares comuns em locais surpreendentes, como se fossem vírgulas para podermos respirar ou para nos empurrarem para a frente, Murakami encanta, mesmo neste tema de que não sou propriamente adepto. Será essa uma das provas da mestria do escritor. Mas existem outras: “Deixar a reflexão para mais tarde é uma das minhas especialidades, uma técnica que aperfeiçoei à medida que os anos foram passando.” E isto tudo, como não poderia deixar de ser, com a modéstia habitual, carregadinha de graça e inteligência: “Não me quero armar em importante – quem se lembraria de tal? -, a verdade é que não sou propriamente o homem mais inteligente do mundo.”
Mas é de certeza um homem determinado, pelo menos quando está para aí virado, como poderia escrever. “Nunca me consegui obrigar a fazer uma coisa que não me apetecesse, no momento em que não tinha vontade.” Também é preciso ter alguma sorte, eu diria.
No meio de tudo aproveitou para escrever algumas memórias, como quando, melómano que é, foi dono de um bar de jazz com algum sucesso, antes de se tornar romancista: “bastava que um em cada dez clientes fosse fiel ao local para que o negócio tivesse condições de sobreviver. Posto de outro modo, não fazia diferença que nove em dez clientes não gostassem do meu bar.” Matemática pura.  E, de memória em memória: “A coisa mais importante que aprendemos na escola é, se querem saber o que eu penso, que as coisas mais importantes não se podem aprender na escola.” Afinal concordamos em alguns temas, quanto mais não seja,“outra maneira de uma pessoa se manter em forma é fazendo a sesta.” Indo até mais longe: “Não me parece que se deva medir o valor da existência com base na eficácia.” Estamos conversados, ou talvez não. Murakami por vezes são, por vezes maluco, como todos nós e os seus romances: parábolas de parábolas de parábolas até não sabermos bem onde é o começo ou o fim, como na vida, não nos lembramos do início, não adivinhamos o fim, mas pelo meio “somos obrigados a pagar um preço por aquilo que queremos.”
Como a cerveja desejada e imaginada ao longo de uma maratona que depois não se concretiza “Não existe no mundo real nada que se possa comparar em beleza às ilusões de um homem em riscos de perder a razão.”
Ainda um interregno para as três principais qualidades para se ser romancista: talento, concentração e persistência. O mesmo talvez na corrida pois “para se confrontar com qualquer coisa verdadeiramente insana, uma pessoa deve ser tão saudável quanto possível.”
E, por incrível que possa parecer, o escritor não passa de um comum mortal: “dúvidas, tenho muitas; explicações, nem uma.”
Termino com um hino a toda a humanidade e assino por baixo: “muitas vezes, obtêm-se coisas por demais valiosas a partir de actos aparentemente improdutivos. Mesmo as acções que parecem não ter valor podem não ser forçosamente idiotas.”
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Haruki Murakami
Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo
Casa das Letras

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