Dostoiévsky: Uma obra colossal
CRÓNICA
| agostinho sousa
O que escrever sobre estes dois volumes, com mais de 900 páginas, que já não tenha sido mencionado? Uma simples pesquisa na net dá-nos aproximadamente 53.000 resultados e só na língua portuguesa.
Apesar do risco inerente, a mim motivaram-me dois aspetos para o trazer a estas lides:
– Primeiro, porque, mesmo sendo um livro escrito há pouco mais de 140 anos, pode ser enquadrado na presente rubrica de «Novos Livros», dada a sua recente 9.ª edição, que permite o suave prazer da subversão dessa regra;
– E segundo, porque é realmente um livro colossal que nos retrata a realidade da Rússia do fim de século XIX, através de um enredo denso de múltiplas personagens, onde se destacam três delas: os irmãos que lhe dão o nome.
O prefácio entreabre uma porta do que virá da leitura: «Na base do enredo do romance está a história real do presidiário Dmítri Iliínski, que Dostoiésvki conheceu nos trabalhos forçados em Omsk; o ex-oficial Iliínski foi injustamente condenado a vinte anos de trabalhos forçados pelo parricídio que não cometera; só passados dez anos foi ilibado porque o seu irmão mais novo confessou que o incriminara do homicídio por ele próprio perpetrado.»
É um manancial de histórias onde «unem-se as margens, [e] todas as contradições convivem», recordando-me uma frase que o Mestre Arqto. Fernando Távora repetia nas suas aulas: «o contrário também pode ser verdadeiro.» A narrativa do julgamento do suposto parricida é prova disso: ele tanto é culpado como inocente, ou mesmo oscila entre as duas em simultâneo, conforme a perspetiva e o decorrer da leitura.
Por entre essa injustiça, anunciada no prefácio, circundam amores (por vezes, demasiado) intensos («É uma paixão, não é amor») e fortíssimos desamores, aumentando os dramas, tantas vezes existenciais, com vinganças e traições, de personagens minuciosamente bem caracterizadas, física e psicologicamente. Pelo meio, uma sociedade muito estratificada, onde cada um sabe (e representa) o seu papel e onde a regra impera, como quando alguém afirma:
«-Sou um homem subalterno – pronunciou Grigóri em voz ala e distinta. – Se os superiores desejarem gozar comigo, tenho de aguentar.»
Uma sociedade que exclui a exceção, o livre-pensador, porque «Quando todos estão despidos, não se sente vergonha, mas quando é só um, todos olham – que opróbrio!»; e onde a religião, vivida de forma intensa e mística, começa, pontualmente, a ser posta em causa por novas causas: como o socialismo, no despontar da revolução que surgiria anos mais tarde.
E pelo meio de enredos intrincados surge uma pergunta digna de destaque: «será possível duas pessoas diferentes terem o mesmo sonho?» Ou como quando alguém desabafa: «E, a si, digo as coisas com mais à-vontade do que a mim própria. E sem qualquer vergonha.» Ou como quando um fervoroso religioso tem receio de novos tempos:
«– E porque estás perdido? Disseste-me isso há pouco – interrompeu-o Aliocha.
– Porquê? Humm! No fundo… se virmos as coisas no seu conjunto… tenho pena de Deus, é isso!»
Do livro “Diários 1 y 2” do escritor espanhol Rafael Chirbes destaco este extrato escrito no verão de 2000:
«Leo Chateaubriand: Memóires d’outre-tombe, y a continuación vuelvo a Dostoievski: Los Hermanos Karamázov. Tomo infinidad de notas de ambos libros: Me gusta guardar en los cuadernos páginas enteras de los libros que me interesan, copiar párrafos y párrafos com mi letra: creo que lo que me gustaria en realidad sería haberlos escrito yo.”
– E qual o leitor que não gostaria de ter escrito este livro?
Mesmo prevendo o seu fim, pela dica do prefácio, é uma leitura que nos surpreende, fervilha o pensamento e deleita. Uma obra-prima que, sem dúvida, merece(rá) releitura!
Espinho, 22/09/2022
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Fiódor Dostoiévsky
Os Irmãos Karamázov (Volumes I e II)
Editorial Presença 17,90€+€