Domingos Lopes: “A cegueira conduz ao abismo”

O dissidente do PCP pensa no partido, no marxismo e nas dificuldades crescentes para influenciar o cursos dos acontecimentos. Afirma que ainda faz sentido “ter presentes referências de Marx”. Defende que “as razões do declínio são várias” apesar de o PCP representar “uma História de sacrifício e heroísmo únicos”. Domingos Lopes afirma que “a cegueira conduz ao abismo” e que “não se pode viver com os olhos no passado”.
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P-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «100 Anos do PCP: Do Sol da Terra ao Congresso de Loures»?
R-Uma data redonda como a dos cem anos é propícia a que se pense no que o PCP foi e naquilo que é. E que se façam análises nas diversas áreas em que partido vai intervindo. Por ter estado dezenas de anos a trabalhar nas relações internacionais do partido, pelo facto de conhecer de perto os países socialistas e tendo em conta o modo como implodiram e as relações muito próximas do PCP com esses partidos, impunha-se dar um contributo para deslindar alguns dos porquês do seguidismo em relação à URSS. Acresce que os pilares em que assentavam esses partidos afundaram-se e paradoxalmente o PCP nunca o teve em conta, atribuindo a responsabilidade daquela falência a causas externas a esses países. Não se tratou de um balanço global dos cem anos da atividade do PCP, mas antes sobre aspetos concretos das suas análises teóricas e práticas na perspetiva de que se tornou necessário resgatar e reconfigurar o ideal comunista, dado que a prática dos partidos comunistas dos países socialistas constituiu uma verdadeira aberração do ideal a partir de certa altura. Também não foi a preocupação de apresentar uma alternativa, mas apresentar alguns pontos que me parecem sólidos para esse resgate. O PCP vai perdendo o contacto com uma realidade que acelera e está preso a uma análise recheada de dogmas que o impedem de poder contribuir para que o ideal comunista possa brilhar como brilhou para os trabalhadores desde o Manifesto Comunista de Marx e Engels, sempre tendo em conta que nestes quase dos séculos de diferença mudou coisa mudou no mundo, incluindo dentro da classe operária e do conjunto dos assalariados.

P-Como foi o seu processo de afastamento e rotura com o PCP depois de muitos anos de militância?
R-O processo de afastamento foi lento e consolidado à medida que muitos outros militantes, quadros e dirigentes apresentavam propostas que não coincidiam com as da direção e eram afastados e alguns mesmo sancionados, como foi, entre outros, o caso de Carlos Brito, Edgar Correias e Carlos Figueira. A direção do partido respondia sistematicamente com a calúnia e perseguição aos membros do partido que confrontavam a realidade com as análises do Comité Central e manifestou-se até à exaustão incapaz de corrigir o que quer que fosse no seu rumo verbalista, obreirista e sectário. Devo confessar que ao cabo de 40 anos é dolosa e doi muito deixar algo quer nunca me passou pela cabeça deixar. É como um amor não correspondido.

P-Em pleno século XXI, ainda faz sentido ter e defender ideias marxistas e leninistas?
R-Faz sentido ter presente referências de Marx no sentido de que as suas previsões em grande medida se confirmaram, sendo certo que outras não. A teoria de Marx não é um conjunto de dogmas. Provavelmente Marx não seria seguidista de si próprio em todos os domínios teóricos e seria interessante perguntar-lhe se seria marxista. Lénine seria leninista? Não sei. Imaginou um mundo a caminho da revolução e deu um enorme contributo para naquelas condições concretas libertar o proletariado da feroz exploração capitalista de então. O mundo hoje mudou e não é um bloco contra o outro no sentido em que se apresentava no início do século. Há muitas coisas em Lénine que são de aproveitar e merecem reflexão, outras estão totalmente datadas.

P-Um partido com 100 anos de existência parece, agora, destinado a um desaparecimento gradual: quais as principais razões desta situação?
R-As razões do declínio são várias. Em primeiro lugar as dificuldades objetivas são enormes. Há um avanço das forças de direita partout . A implosão do socialismo foi um rude golpe na credibilidade dos comunistas. O avanço do neoliberalismo cria dificuldades enormes às forças sindicais, populares e progressistas. O facto do PCP ter tido uma posição seguidistas em relação à URSS e ao PCUS e em geral aos países socialistas fê-lo perder prestígio, pois não se afastou de modelo que faliu e ninguém o defendeu, nem os próprios comunistas desses países, ou seja, estavam filiados para defender os seus interesses individuais. O absurdo da situação leva a que o PCP se substitua aos militantes e povos desses países a defender o que eles não defenderam, pois o viveram na própria carne e espírito. Ao apresentar esses países como o Sol da Terra criaram uma ilusão que não correspondia à realidade. Ademais, não procedeu a qualquer retificação das suas análises em choque com a realidade. A direção do PCP converteu o partido numa máquina verbalista cuja mensagem está atrasada dezenas e dezenas de anos o que impede a comunicação com a sociedade. Além disso, perdeu o contacto (o que foi a sua força) com os ativistas sociais, os que estão no centro da vida no processo produtivo a todos os níveis, seja nas fábricas, oficinas, escritórios, escolas, universidades, centros de recreação e cultura e movimentos sociais. Fechou-se na sua fé. Afastou os que traziam as novidades e podiam projetar o partido. Fechou as portas e as janelas para poder acreditar no discurso que “transmite”. Até na invasão da Ucrânia para não dar a suposta força ao imperialismo norte-americano foi incapaz de condenar a guerra num primeiro momento e enredou-se numa postura ambígua que permite aos seus adversários tirar partido da falta de condenação à cabeça da criminosa invasão da Ucrânia, a qual precisamente contribuiu para um crescente militarismo e reforço da NATO.

P-Um partido com 100 anos de existência parece, agora, destinado a um desaparecimento gradual: quais as principais razões desta situação?
R-Não estou em condições de afirmar que a posição errada sobre a guerra é prova da impossibilidade de mudança. A cegueira conduz ao abismo. O PCP parece não arrepiar caminho e fazer da senda do desastre o que considera ser a sua coragem, o que é uma tristeza, pois o PCP representa uma História de sacrifício e heroísmo únicos. Mas também é verdade que não se pode viver com os olhos no passado. Os olhos do futuro têm de estar no futuro.

P-Com o eventual desaparecimento do PCP (ou, pelo menos, da sua influência), parece que uma fatia importante da Esquerda fica à deriva pois não se reconhece no PS nem noutros partidos mais pequenos: que futuro para a intervenção política de eleitores, simpatizantes e ex-militantes?
R-A continuar nesta via dolorosa para todos os comunistas (em primeiro lugar) o futuro não passará pelo PCP. Há um cartaz do PCP que assinala que O FUTURO TEM PARTIDO, mas terá ou é apenas mais um slogan verbalista sem qualquer correspondência com a realidade? Um partido tão cheio de certezas, de razão, de afirmações dogmáticas, tão só, muito provavelmente fechou as portas a todas e a todos os que poderiam abrir as janelas e trazer lufadas de ar fresco e assim prosseguir a sua fantástica História. Se os seus dirigentes forem os únicos certos e todos os outros que não partilhem os seus pontos de vista tratados como oportunistas ou liquidacionistas poder-se-á afirmar que a Comissão Liquidatária já tomou posse.
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Domingos Lopes
100 Anos do PCP: Do Sol na Terra ao Congresso de Loures
Guerra e Paz. 14€

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