José Eduardo Franco: “Vieira é uma inspiração para compreendermos melhor a condição humana”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “A Inveja é o Vício de Portugal”?
R-É um dos resultados de ensaios que realizei ao longo 30 anos dedicados ao estudo da vida e obra do Padre António. A leitura dos sermões, das cartas, dos tratados, da poesia e do teatro de Vieira ainda hoje continua a ser uma escola de bem falar e bem escrever em língua portuguesa. Os escritos de Vieira são ainda uma inspiração para compreendermos melhor a condição humana em termos universais, mas também a mentalidade e os comportamentos sociais dos portugueses em particular. Por isso, abalancei-me em propor a publicação deste livro para ajudar, pelo olhar arguto de Vieira, a nos compreendermos melhor enquanto indivíduos e enquanto comunidade.

2-Passados vários séculos, qual é ainda a actualidade e o valor da obra do Padre António Vieira?
R-Vieira, considerado por Fernando Pessoa como sendo o Imperador da Língua Portuguesa, é um clássico da nossa literatura, da nossa cultura, do nosso pensamento. Um clássico é aquele que nunca se desatualiza. No fundo, as grandes questões e problemáticas da condição humana no plano individual e coletivo permanecem as mesmas, mudando apenas os aspetos contextuais da superfície da história. Ora, os diagnósticos e as respostas de Vieira aos problemas e desafios de há 400 anos atrás continuam, em alguns casos, atuais e ajudam-nos a olhar com mais lucidez as grandes questões do presente. Por isso, vale a pena revistar Vieira no século XXI. Vieira não é só um mestre maior da língua portuguesa admirado pelos grandes escritores que lhe sucederam desde Herculano até Saramago. Vieira é também um arguto psicólogo e analista dos traços dominantes da mentalidade portuguesa e da humanidade em geral. Inveja, maledicência, corrupção, inércia, burocracia do Estado, incapacidade de inovação foram alguns problemas que Vieira identificou e caracterizou como males portugueses que impediam o nosso progresso. Se foi um psicólogo avant la lettre foi também um pensador utópico que idealizou um mundo melhor com o seu projeto do Quinto Império. Por isso, Vieira é hoje um escritor e um pensador apreciado internacionalmente com uma mensagem pertinente para o melhoramento da Humanidade.

3-Na obra de Vieira que tão bem conhece, qual o melhor conselho que ele poderia dar aos Portugueses do século XXI?
R-Vieira é o cultor da espiritualidade da ação. Detestava o imobilismo, a resignação e todos aqueles que, nomeadamente em Portugal, combatiam quem era empreendedor e queria fazer o país avançar. Esses eram os grandes obstáculos ao progresso de Portugal. Escreveu num dos seus sermões o seguinte como indicador do que engrandece e dá sentido à vida humana: “quando fazemos, vivemos; quando não fazemos apenas duramos”. Este é o ideário de Vieira para a vida de qualquer ser humano e para Portugal em especial. Lamentava aqueles que não faziam, apenas criticavam e deitavam a baixo os que erguiam projetos de melhoramento da comunidade. O conselho de Vieira é simples: façam e não apenas critiquem, e deixem, quem tem boas ideias, concretizá-las para a valorização de todos.
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José Eduardo Franco
A Inveja é o  Vício de Portugal
Temas e Debates  17,70€

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