1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “O Ritual do Poder”?
R-O livro nasceu pela primeira vez sob a forma de uma tese de doutoramento, escrita na linguagem rigorosa que a academia exige. E agora pela segunda vez numa linguagem acessível e de fácil compreensão. Percebi que tinha de o reescrever quando, em várias conversas, o tema surgia e se acabava sempre a falar sobre por que razão os comícios ainda persistem, a razão de se colocar o som alto de propósito ou até que ponto não seria tudo manipulação. Foi a repetição destas conversas que me deixou claro que era preciso mostrar o que os políticos fazem, e o que nos fazem sentir, para além daquilo que dizem. A ideia do livro é ligar as luzes da plateia. O comício é o espelho mais fiel da política; é lá que ela aparece despida da gestão quotidiana dos assuntos públicos.
A linguagem é acessível, mas o rigor foi mantido. Todas as ideias expostas na obra, desde a terminologia das multidões até à liturgia laica dos partidos, assentam em anos de investigação e no pensamento de alguns dos maiores filósofos políticos da nossa história. Se há uma lei que tirei destes anos todos, é esta: não há democracia sem a festa da política. E quanto mais uma sociedade se julga racional, mais precisa dos laços emocional que formam uma comunidade.
2-O seu livro parece estar um pouco em contra-ciclo pois valoriza meios mais tradicionais (como os comícios) numa época em que parece que o digital e o online são determinantes no desenvolvimento da acção política: porquê?
R-Parece-me exatamente o contrário: foi o digital que tornou o comício outra vez interessante de estudar como fenómeno político. Durante anos ouvimos que o presencial ia morrer e os consultores aplaudiram os comícios por streaming e as reuniões de videoconferência com milhares de participantes; tudo sob a lógica de que se chegava a mais gente e se gastava menos dinheiro. Falharam redondamente. Um comício por streaming não tem aura. O militante está de pijama no sofá, com o cão a ladrar na rua e o WhatsApp a apitar, e a membrana que separava o espaço da Política do nosso quotidiano foi rasgada. Sem a densidade de presença humana, sem o calor, sem o barulho que nos transporta para o centro do acontecimento, o político volta a ser apenas um indivíduo a falar. A digitalização transformou a crença política em conteúdo, e conteúdo não cria mobilização, cria consumidores. O militante digital fecha o browser quando se aborrece; no pavilhão fica preso até ao fim.
O que aconteceu não foi a substituição do comício pelo digital, foi a subordinação de um ao outro. O comício não desapareceu, apenas mudou e deixou de ser feito apenas para as três mil pessoas na sala, que já iam votar naquele partido; passou a ser a fábrica de imagens que alimenta tudo o resto. Estudar o comício hoje é estudar a matéria-prima de boa parte da comunicação política digital. Se não se perceber o que acontece dentro do pavilhão, não se percebe de onde vem aquele clip de quinze segundos que aparece no ecrã do telemóvel.
E há uma razão que me parece mais forte do que todas as outras. Estamos a entrar numa crise de prova. O vídeo foi, durante o século XX, a prova suprema da verdade; a lógica era “se passou na televisão, aconteceu”. Com a IA generativa, deixou de o ser. Num mundo em que qualquer imagem pode ser fabricada, a presença física torna-se o único certificado que não se falsifica. O comício do futuro não serve para mostrar força, mas servirá em breve para fazer prova de vida: ir à praça confirmar que aquela pessoa existe, que sua, que tosse, que se cansa. A imperfeição humana vai passar a ser o ativo mais valioso da política.
Contra-ciclo, verdadeiramente contra-ciclo, é continuar a acreditar que a política moderna se tornou fria, técnica e racional, e que se joga apenas nas folhas de cálculo e nos algoritmos. Cinquenta anos de democracia em Portugal mostram o contrário. De racional, a vida política tem muito pouco. E o comício, com todos os seus defeitos e virtudes, é ainda hoje o laboratório perfeito para percebermos muito do que acontece nas várias frentes da política democrática.
3-Do seu ponto de vista, quais são as principais tendências que identifica nas ferramentas usadas pelos actores políticos em Portugal e no estrangeiro?
R-A primeira e mais visível é a “clipabilidade”. Os discursos já não são escritos como textos contínuos, são escritos como coleções de blocos autónomos de trinta segundos, separados por pausas que funcionam como marcas de edição. Cada bloco tem princípio, meio e fim, não porque o argumento o exija, mas porque o editor tem de poder cortar sem perder sentido. É um guião escrito para ser desmontado. O efeito colateral é a morte da nuance: o “talvez” e o “depende” são banidos porque não dão bons títulos nos telejornais nem bons vídeos nas redes sociais.
A segunda é a passagem da massa para a prova de massa. O evento já não existe apenas para reunir pessoas, existe também para provar que elas existem. Daí a engenharia: cortinas pretas a encolher a sala, cadeiras retiradas para obrigar as pessoas a ficar de pé e apertadas, o teto baixado com estruturas de luz. Um pavilhão com mil pessoas é um fracasso ou um triunfo consoante a compressão dos corpos no plano da câmara.
A terceira é a fragmentação algorítmica, e é para mim a mais grave. Do mesmo comício saem hoje milhares de versões diferentes do mesmo evento, editadas à medida de quem as recebe: uma com música heroica e comentários de apoio, outra focada na gafe, com música de palhaço. Não são duas interpretações do mesmo evento, são literalmente dois acontecimentos. O algoritmo não amplifica o comício, substitui-o por conteúdo. Perdemos o mundo comum que a televisão, com todos os seus defeitos, ainda garantia às oito da noite.
Não sendo objeto do livro a comparação com outras geografias, é interessante olharmos para a forma como o mesmo tipo de evento é usado de forma distinta. Os Estados Unidos transformaram o comício em digressão permanente, com merchandising e formato de espetáculo; e na última eleição presidencial deslocaram boa parte da comunicação dos meios tradicionais para o circuito dos podcasts e dos criadores de conteúdo. A Índia mantém o comício de massa clássico, porque onde a população é imensa e a penetração mediática é desigual a multidão continua a ser a própria mensagem; o caso dos comícios com hologramas para colocar o mesmo candidato em várias cidades ao mesmo tempo é um caso de comunicação eleitoral notável, mas que foge bastante do contexto europeu. O norte da Europa nunca abandonou a reunião de praça, sóbria e pequena.
As formas mudam conforme a identidade e contexto de cada geografia, mas a função não muda em lado nenhum. Não é possível pensar a Política sem o comício, porque nenhuma democracia sobrevive sem um momento em que os cidadãos provam uns aos outros que a causa existe. Quem não compreende o comício não compreende a natureza humana da Política.
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Nuno da Silva Jorge
O Ritual do Poder
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