Mafalda Santos: “Um regresso à distopia”

Mafalda Santos acaba de editar um  novo romance que considera que “é talvez o meu livro mais político e onde a pergunta, «o que significa ser humano?» se coloca de forma mais direta”.
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1-O que representa no contexto da sua obra literária o livro Terra Estreita?
R-Terra Estreita representa um regresso à distopia, atravessado por tudo o que fui explorando nos livros anteriores. Se em Do Outro Lado o mundo se fragmentava e explorava a metáfora das dimensões paralelas, e em Enquanto o Fim Não Vem e Aquilo que o Sono Esconde a rutura acontecia dentro da mente das personagens e da própria narrativa, em Terra Estreita  o mergulho é feito em profundidade no exterior e na procura do herói coletivo. Não é uma distopia sobre sistemas ou tecnologia, mas sobre a fragilidade do vínculo humano. O que está em causa não é apenas sobreviver, mas perceber o que resta de nós quando o afeto se torna impossível. Nesse sentido, é talvez o meu livro mais político e onde a pergunta, «o que significa ser humano?» se coloca de forma mais direta.

2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-A ideia nasceu da pergunta: e se o toque passasse a matar? Mas mais do que o impacto do evento em si, interessava-me aquilo que ele revelava. Vivemos num mundo onde as várias formas de proximidade são cada vez mais raras, onde as relações se fazem à distância, onde a empatia e o contacto humano se vão esvaziando sem darmos por isso. O livro leva essa realidade ao extremo: transforma em impossibilidade física aquilo que já é, em muitos casos, uma impossibilidade emocional. Nunca me interessou explicar a origem do fenómeno. O foco está nas consequências, no que acontece às pessoas, às relações, à ideia de comunidade, quando aquilo que nos liga aos outros se torna fatal.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a trabalhar num novo romance onde regresso a um ambiente mais surrealista. É uma história que parte de um núcleo familiar e de um acontecimento irreversível que cruza várias dimensões: o luto, a culpa, os limites da responsabilidade e a forma como a verdade se constrói e distorce dentro de uma família. Interessa-me particularmente essa zona ambígua onde a realidade começa a falhar, onde o que o que acontece e o que é entendido deixam de coincidir. É um livro mais íntimo, mas também mais instável, onde o conflito não se resolve no mundo, mas dentro das personagens. Mantém uma base de thriller psicológico, mas com uma forte dimensão emocional, centrada naquilo que cada um é capaz de suportar
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Mafalda Santos
Terra Estreita
Penguin  18,45€

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